Data de Hoje - 19/Abril/2019

Venezuelanos escolhem Dourados para recomeçar

Diego Rivera, 30 anos, era policial. Gustavo Díaz, 52, trabalhava na exploração de petróleo, enquanto Rodney Solís, 31, era motorista. Os três têm em comum apenas a nacionalidade venezuelana e a oportunidade de recomeçar a vida em Dourados, a 230 quilômetros de Campo Grande.

Rivera e Solís fazem parte do grupo de 130 refugiados e migrantes venezuelanos deslocados de Boa Vista (RR) para a cidade no interior de Mato Grosso do Sul, no dia 24 de março. O processo de interiorização faz parte da Operação Acolhida, do Governo Federal.

“Eu era policial, mas me vi em um ponto que precisei deixar o emprego para emigrar. Com meu salário, se comprava o arroz, não comprava a carne. Se comprava a carne, não comprava o arroz”, conta Rivera, que deixou a esposa grávida e o filho de três anos na Venezuela. Ele planeja trazê-los para o Brasil.

Com duas plantas na região de Dourados, a JBS se dispôs a empregar o grupo. Os venezuelanos passaram por uma triagem ainda em Roraima, com provas, exames médicos e entrevistas. Já Díaz chegou ao Estado há quase dois meses, pouco depois da primeira leva de 101 refugiados e migrantes trazidos pela Operação Acolhida. Segundo ele, a Igreja de Jesus Cristo dos Satos dos Últimos Dias auxiliou com as passagens.

O autônomo Odair Laércio, 44, voluntário no auxílio à logística dos venezuelanos em Dourados, puxou o Pai Nosso. De mãos dadas, o grupo ouviu e assentiu que cada um lavaria seu prato depois de comer.
Solís fez a vida como motorista, mas com a crise e o desemprego, acabou na mineração para tentar sobreviver. Sem sorte, deixou a pequena El Palmar – no nordeste da Venezuela – por melhores condições no Brasil. O filho de seis anos, e a filha de três, ficaram com a mãe. “Foram dois dias caminhando até chegar em Pacaraima (RR). Em Boa Vista fiquei no abrigo Tancredo Neves. Vamos nos acostumando com a situação. Antes, jogava fora uma mesa que achava que não servia, ou uma cadeira. Agora, ter uma mesa já é um luxo”, diz.

Solís vai dividir um apartamento de dois quartos com mais quatro venezuelanos no Jardim Água Boa. As moradias para os 130 refugiados e migrantes foram viabilizadas por voluntários em Dourados, como Laércio.

“Nós fornecemos uma cesta de alimentos até eles começarem a trabalhar. A partir do segundo mês eles vão começar a custear aluguel, água, luz e comida com o dinheiro de seu salário”, explica.

O deslocamento dos 130 venezuelanos para o interior do Estado teve o apoio da Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que cedeu bolsas de auxílio temporário aos realocados. A Agência da ONU para Migrações (OIM) fretou o avião que transportou 100 venezuelanos e custeou as passagens em voos comerciais dos outros 30.

“COMEÇAR DO ZERO”

Diferente de Rivera e Solís, Gustavo Díaz chegou em Dourados sem garantia alguma. O filho, Gustavo Eduardo Díaz, 17, veio junto. Com 20 anos de experiência em perfuração de poços de petróleo, Díaz garante que entregou dezenas de currículos desde que chegou a cidade sul-mato-grossense. Conseguiu bicos em capinagem, construção e transporte. Gustavo Eduardo vende salgados de porta em porta.

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